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das coisas pra vida inteira.
21/02/2011, 11:48 PM
Filed under: das coisas.

Assistia. Vidrado na tevê, seus olhos sequer piscavam a cada fala do político sobre suas propostas para o possível mandato. Olhava, ouvia, sentia. Seus nervos a flor da pele a cada nova declaração. Não importava exatamente o por quê, mas seus nervos tiniam, os olhos apertavam e seus punhos se cerravam num ódio sobrehumano. Ódio. Era isso que sentia. Puro e infantil ódio. Esqueceria o motivo, fatalmente, mas o sentimento permanecia puro e intacto diante da injustiça cometida diante de bilhões de seres humanos. O motivo, que talvez nem tivesse consciência, era esse: injustiça enfiada goela abaixo, sem direito de resposta nem argumentação lógica. Injustiça pura e simples, adulta e estratégica, jamais infantil como sua sensibilidade contra aquele tipo de atitude.

Cerrou os punhos com mais força, os nós dos dedos já brancos, as lágrimas de raiva nos olhos e um flashback tomou-lhe. Tinha cinco anos, talvez seis. Durante o jogo de queimada todos riam ao (tentar) desviar do perigo iminente. Crianças alegres ao se divertirem. A bola – ferozmente lançada em sua direção – e um lapso de atenção da professora a tornara aquela pessoa que repudiava injustiça. Seu time estava mais preocupado consigo mesmo. Seus adversários uniram-se em uma força poderosa: a coletividade. Sua palavra, contra a de dez ou doze amigos, não valia nada. Por mais que argumentasse, brandisse ou se exasperasse, sua versão de nada valia. Era inferior as vozes que afirmavam que a verdade era mentira e que a mentira era verdade.

Não podia dizer que aceitara seu destino. Irritada, chorosa e emburrada, a pequena garota seguiu para seu canto, odiando a tudo e a todos que participaram de tamanha injustiça. O erro cometido por um grupo, ainda que de crianças, espelhava a sociedade na qual se veria anos depois. Uma sociedade que não pensa duas vezes em afirmar que a bola tinha lhe acertado, sem se importar se havia ou não batido no chão primeiro. Uma sociedade que estava mais interessada em queimar o próximo, unida, e depois, um a um, destruir os inimigos que, se tentassem entender mais profundamente, não passava da verdade sem voz que corria silenciosa pela garganta de todos na quadra. Que corria na mente de todos que elegeriam aquele e tantos outros políticos capazes de inverter a verdade e mentira sem sequer hesitar entre o certo e o errado, interessados apenas na própria vitória.


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